Louis Hector Berlioz nasceu em La Côte-Saint-andré, perto de Grenoble (França) a 11 de dezembro de 1803. Embora muito cedo revelasse talento musical, aos dezoito anos a família enviou-o para Paris, a fim de fazer um curso de medicina. Atraído pelo Teatro da Ópera e pelo movimento artístico da metrópole, não tardou em trocar a universidade pelo conservatório: a desaprovação dos pais lhe custaria quase dez anos de aborrecimentos.

Depois de várias tentativas infrutíferas, Berlioz conquistou em 1830 o prêmio de Roma. Escreveu a cantata a última noite de Sardanapalo (1830), trabalho inacabado e não publicado. Mas ficaria apenas um ano e meio na Itália. Foi na mesma época que compôs a Sinfonia Fantástica - Episódio da vida de um artista (1830), expressão retumbante de seu amor pela atriz inglesa Harriet Smithson. Três anos depois estariam casados, mas profundamente infelizes.

Berlioz não conseguia fazer aceitar sua arte: a miséria material o perseguiria até os últimos dias. O ambiente de Paris lhe era em tudo adverso: a música sinfônica e instrumental era inteiramente desprezada, em benefício de uma voga de óperas medíocres, de auber, Halévy e outros.

Escritor espirituoso, Berlioz colaborou no Jornal dos debates como crítico de música para sobreviver, trabalho que odiava. Em 1839 foi nomeado conservador da biblioteca do conservatório, único posto oficial que ocupou em vida.

De 1840 em diante, viajou como regente de orquestra. Recebeu, contudo, o estímulo de um reconhecimento entusiástico por parte de Paganini. Foi dessa época a sua paixão por Marie Recio, cantora sem sucesso e que não lhe traria menos infelicidades do que a primeira mulher. Em 1852, Liszt organizou em Weimar uma ‘Semana Berlioz’, cujo êxito não chegou a equilibrar a situação material do compositor. Foi eleito membro do Instituto (1856), mas sua obra não continuava não sendo muito apreciada na França.

Os últimos anos foram os mais amargos do sofrido Berlioz, salvando-o do naufrágio total apenas a viagem à Rússia, em 1867: deu uma série de concertos em Moscou, conheceu a música do grupo dos ‘Cinco’, descobriu o gênio de Mussorgsky. Berlioz acabou por morrer na solidão, em Paris, no dia 8 de março de 1869.

Berlioz foi um romântico autêntico, com todas as qualidades e defeitos do movimento de que, na França de seu tempo, foram Victor Hugo e Delacroix os protagonistas. O fascínio pelo monumental, pelo desmedido, embora prejudicando sensivelmente os resultados estéticos de seu trabalho, acabou por levá-lo a uma das suas principais realizações: a revolução da técnica orquestral. A riqueza, o colorido das combinações instrumentais já se fazem sentir na Sinfonia Fantástica.

A grandeza de Berlioz como compositor não é, até hoje, unanimemente reconhecida. Sua contribuição historicamente mais importante para a música do século XIX foi a da invenção da música de programa, fruto de sua sensibilidade principalmente literária. Substituiu o desenvolvimento de idéias musicais, conforme a lógica interna à maneira de Haydn e Beethoven, pela submissão da música a um programa literário, chegando até a imitação de ruídos característicos.

Esses programas são, em Berlioz, os do Romantismo francês a que se misturam elementos fantásticos e grotescos. Para tanto, usa orquestra muito maiores e mais diversificadas que as do Classicismo vienense. Seu Grande tratado de instrumentação e de orquestração modernas (1844) é obra básica, de forte influência sobre Liszt, Wagner, Richard Strauss e Smetana.

A riqueza e o colorido das combinações instrumentais se fazem sentir na Sinfonia Fantástica (1830), obra vigorosa, cativante pela magia do movimento lento e pelo naturalismo macabro da Marcha do tormento.

Mas a admirável orquestração de Berlioz, que faz de seu requiem Missa dos mortos (1837) a mais aparatosa música fúnebre já composta, chega ao ponto mais alto em Romeu e Julieta (1839), sinfonia dramática dedicada a Paganini, que lhe encomendara alguns anos antes a sinfonia Haroldo na Itália (1834), pitoresca viagem musical pela paisagem italiana e até hoje uma das obras mais executadas do compositor.

No talento inquieto e generoso de seu criador, a prática salvou a teoria, sendo a melodramaticidade dos programas por uma indiscutível inventividade melódica. Essa qualidade faz de a danação de Fausto (1846), cantata cênica baseada - muito livremente - na obra de Goethe, uma de suas melhores criações, e daria ao oratório a infância de Cristo (1850-1854) uma beleza serena e surpreendentemente sóbria.

Em suas últimas composições, Berlioz superou os transbordamentos românticos peculiares às outras fases, conseguindo dar à ópera Os troianos (1856-1859) um sabor virgilianamente clássico e momentos de verdadeira grandiosidade, sobretudo em sua segunda parte, Os troianos em Cartago.

Além das mencionadas, Berlioz deixou as aberturas O rei Lear (1831) e O carnaval romano (1844), a Sinfonia fúnebre e triunfal (1840), a ópera Benvenuto Cellini (1834-1838). De sua produção literária, são importantes: Grande tratado de instrumentação e de orquestração modernas (1844), as noites de orquestra (1852), Os grotescos da música (1859).

Berlioz - Minha coleção