Jean-Philippe Rameau nasceu em Dijon (França), em 25 de setembro de 1683. Seu pai, organista de Notre-Dame de Dijon, foi, talvez, o seu primeiro professor, mas não se sabe quase nada acerca da infância e adolescência de Jean-Philippe. No colégio de Jesuítas onde estudou humanidades, foi, suficientemente mau aluno para o que o deixassem seguir a carreira musical. Seu pai enviou-o para Itália para aperfeiçoar a sua formação, mas não se interessou pela música italiana e voltou muito rapidamente para a França com uma companhia de comediantes de que foi violinista.

Tornou-se organista em avignon (1702) e depois em Clermont-Ferrand. Em 1705, fixou-se em Paris, onde arranjou alguns empregos menores como organista. Mas não conseguiu obter uma colocação interessante, apesar da publicação (1706) do seu Primeiro livro de peças para cravo.

Regressou a Dijon, onde sucedeu a seu pai como organista de Notre-Dame (1708-1714). Entre 1715 e 1722 foi novamente organista em Clermont-Ferrand, dedicando melhor de si próprio a trabalhos teóricos, à margem dos quais considera a composição uma atividade complementar. Quando voltou a Paris, em 1722, com quase 40 anos, era praticamente desconhecido e não escreveu quase nada. A publicação do seu Tratado de harmonia (1722) e do seu Segundo livro de peças para cravo (1724) atraiu as atenções sobre ele e fez que, pouco a pouco, o melhor professor de música da capital. Mas a sua fama permanecia apenas como teórico e pedagogo.

Em c.1730 , conheceu o financeiro La Poupliniere que o nomeou diretor da sua música particular e o apresentou a Voltaire (que lhe daria 4 libretos) e fez com que as portas da ópera se abrissem para a sua Hippolyte et aricie (1733). Fiéis à ópera de Lully, os músicos conservadores ergueram-se contra as ousadias harmônicas, a importância da orquestra e os "italianismos" que descobriram na obra de Rameau. Mas o veredicto do público foi favorável e foi confirmado triunfalmente nos anos seguintes, viriam nascer as maiores obras-primas: Les indes galantes (1735), Castor et Pollux (1737) e Dardanus (1739).

Em 1745, Rameau, que era um pouco cortesão, foi nomeado compositor do rei e a princesa de Navarro (em colaboração com Voltaire) foi representada com grande pompa, em Versalles, no casamento do delfim. A glória do músico atingiu o cume: teria sido suficiente para derrotar os partidários de Lully se a luta entre os lullistas e ramistas tivesse sido mais do que uma invenção dos musicógrafos. Todavia, em 1752, ano em que apareceram as suas Nouvelles réflexions, a Querelle des Bouffons precipitou-o, contra a vontade, na arena. Serviu de alvo aos partidários da música italiana, cujos porta-vozes são Grimm e Rousseau, apoiados pelos enciclopedistas (ele, que fora acusado de italianismo, alguns anos antes).

Se Rousseau e Grimm fossem verdadeiros músicos, teriam apercebido daquilo que a obra de Rameau continha de lirismo, de gênio melódico, de esplendor instrumental, dignos da Itália (apesar da sua insistência teórica na supremacia da harmonia). Teriam visto também que La serva padrona não é nem a obra-prima de Pergolesi, nem a obra-prima representativa do gênio italiano suscetível de se opor a Castor et Pollux ou a Dardanus e que, ainda por cima, Rameau era mais qualificado que eles para defender a música admirável que se fazia na Itália.

Esta questiúncula, que nascera em espíritos com insuficiente cultura musical, não perturbou a serenidade de Rameau, esse grande sábio da música (que era muito semelhante mesmo fisicamente, ao seu amigo Voltaire). Com uma perfeita honestidade intelectual e uma argumentação sólida, atacou a retórica especiosa de Rousseau, mostrando como eram gratuitas as suas informações e grosseiros os seus sofismas.

Mas teve a infelicidade de denunciar as inexatidões ou as simplicidades da Enciclopédia no capítulo da música, o que teve como efeito reforçar a animosidade dos seus adversários. Estes, foram em grande parte, responsáveis pelo fato de, 15 anos depois da sua morte, nenhuma das suas obras figurar já no repertório, apesar dos êxitos confirmados pela multiplicidade de representações até 1755. Rameau faleceu em Paris, devido a uma febre tifóide complicada pelo escoburto, em 12 de setembro de 1764, aos 81 anos.

Teórico eminente e um dos maiores músicos franceses, amigo de Voltaire, protegido por um poderoso representante da nova burguesia, era bem o homem novo, que os progressistas de então tiveram a loucura de não reconhecer. As suas óperas (especialmente as suas obras-primas criadas entre 1733 e 1745) representam, no campo musical, um renascimento da ópera clássica francesa, apesar dos temas e encenações convencionais que ligam às "pompas de Versalles". Aí, notam-se, especialmente, algumas aquisições italianas (ária da capo, grandes melodias do bel canto, importância da orquestra): arte muito mais audaciosa do que a de Lully, tanto do ponto de vista melódico como harmônico. As peças descritivas, especialmente notáveis, têm origem numa arte totalmente nova (o tremor de terra das Indes galantes, por exemplo).

A música religiosa, pelo contrário, adotou, de forma bastante convencional, o grande estilo italiano: parece que, ao contrário dos seus antecessores, Rameau considerou a composição para igreja uma obrigação fastidiosa.

A música instrumental é muito interessante, especialmente as Peças para cravo em concerto (cravo, um violino ou flauta, e uma viola ou segundo violino). Pela primeira vez numa obra deste gênero, um cravo não é nem um contínuo, nem um instrumento polifônico, com em J.S.Bach, mas um solista virtuose (nisso, estas peças anunciam Haydn e Mozart). A forma francesa da suíte de danças foi abandonada em proveito de uma forma aparentada com o concerto italiano em 3 movimentos.

É preciso salientar entre as inovações de Rameau - na hamonia, utilização sistemática de acordes dissonantes por sobreposições de terceiras e de acordes com sextas, quartas ou sétimas aumentadas - na instrumentação, introdução de clarinetas na orquestra (Zoroastro, 1749), utilização na orquestra de cordas duplas e dos pizzicatos - na forma, a importância dada à abertura nas óperas (prenuncia a abertura programática dos românticos).

A sua obra teórica baseia-se na observação do fenômeno natural da ressonância dos corpos sonoros. Comungando da utopia dos enciclopedistas, segundo a qual tudo que está ligado á natureza é bom, encontra aí (segundo Euler e os pitagórios) a justificação da consonância e o fundamento da sua teoria da "geração harmônica". As teorias pecam por vários postulados contestáveis (em especial, a equivalência das oitavas), mas têm o mérito novo de se fundamentarem em bases científicas e já não metafísicas.

No plano pedagógico, ainda somos devedores do seu gênio: a sua teoria das inversões simplificou prodigiosamente o ensino da harmonia, submersa, até então, numa confusão incrível. Foi também um dos mais resolutos defensores do tratamento igual.

Obras: 32 óperas (tragédias líricas, comédias-bailados, óperas cômicas), 5 motetos para solistas, coros e orquestra, 7 cantatas profanas, 5 séries de Peças para cravo em concerto, 62 peças para cravo, cerca de 20 obras teóricas (das quais as mais importantes são Traité díharmonie réduite a ses principes naturels e a Genéretion harmonique).

Rameau - Minha coleção